
Para Gustavo
Ele é raro como o mais profundo tom de azul. Ele é sagrado, ele é antigo, ele é majestático. Ele é o grande silêncio. Ele, com seu olhar de amêndoas doces e suas palavras com néctar. Ele é puro como a chuva da noite, e protege sua singularidade. Ele é melancólico, como o canto de uma baleia solitária. Ele, besourinho. Com suas escadarias ocultas, e suas raízes abissais, e seus recônditos secretos, e sua imponência de carvalhos, e suas águas retrocompatíveis com as águas do dilúvio, e seu vasto labirinto, e sua antiga escrita esquecida. Profundo como um monumento, ele é o mais antigo de nós. Ele, tesourinho.
Ele é lento porque é sagrado.
Nasceu quando uma criança o desenhou na areia branca da praia, quando as calmas águas rumorejavam: nasceu no País do Mar. Foi engolido pelo mar, como o País do Mar. Como Yonaguna, ele é um mistério ainda não solucionado. Não se enganem achando que está revelado: ele não está à tona; como uma hiperesfera, ele é incompreensível. Recolhe-se em sua concha, labiríntico, profundo como um náutilo. Ele é sagrado, como uma vestal.
Com ele, aprendemos que todos os gigantes são bons. Ele, cujo coração conheceu a aurora rosada e fria, enquanto que, para os demais de nós, o céu inicia laranja e cálido. Talvez, eu tenha feito a pergunta errada: talvez, o que importa seja não sua origem, mas para onde se dirige. Acho que tive medo. E por isso obliterei que, um dia, ele se levantará e irá embora. E seremos deixados órfãos de sua preciosidade. Será levado porque as coisas mais puras são também as mais vulneráveis e o que é precioso não pode ser deixado muito tempo entre nós.
Jamais haverá alguém como ele, porque gigantes são de difícil construção. Ele próprio é o resultado de um grande número de coincidências e alinhamentos: um desenho de criança à beira-mar, o vasto vazio, a aurora rosada e fria. E então, a construção começou: o mar precisava acalmar-se, era necessário achar uma concha repousando sobre a areia. As raízes abissais levariam séculos para crescerem.
E, de tudo isso, essa majestade, essa serenidade, seremos deixados órfãos quando o último gigante se for. E a vida se tornará lúgubre e cinza. Voltará para as águas lodanosas, de onde veio. E seremos deixados apenas com sua escrita indecifrável.
Recolhe uma concha na areia, silencioso e gentil, enquanto o mar apaga o desenho da criança que um dia existiu.