Monstruosidade — Me Ame Como Um Pai

Um dia você nasceu, brisa morna não acolhida, pontinho sem definição. Apaguei e esqueci seu nome no transcorrer de milênios. Hoje, a chamo de Monstruosidade Abjeta. Mas, seu real nome, perdi. Seria algo como Valintra, o lugar aonde você passou? Eu nunca soube que dores a prostraram, que fomes a corroeram, que vertigens a cegaram, que cansaços a venceram, mas, estou aqui, vacilantemente forte, para acolhê-la.

Valintra — crueldade e brutalidade sem-par.

Você não teve pai, por isso eu a ensinarei a viver no mundo. Também eu fui destruído, em vez de criado, mas minha passagem por Valintra foi breve. Como harmonizar o fato de que você me destruiu e, ainda assim, sinto sua falta? Monstruosidade, saudade e nostalgia são diferentes: a saudade é triste, a nostalgia não.

Tivesse você sido acolhida ainda brisa, teria se tornado um tornado?

Monstruosidade, tenha muita paciência com Deus.

Um dia você nasceu, forte como uma criança, com sua felicidade barulhenta. E os mais deslumbrantes gritos de desespero; e os pés que dançaram como se sobre um braseiro; e os ecos desencontrados de felicidade violenta; e seu modo de hibernação ancestral; e séculos se sucederam e você agigantou-se com eles. Porque você é ancestral, e uma característica pouco falada é a sua metuselaridade. Atingi seu núcleo interno de violência antes de chegar à sua periferia.

Que você possa me amar como um pai. E como uma mãe. Repita comigo: em busca de mais luz!

Não sou bobo: jamais pronunciarei seu nome, pois isso a multiplica e o objetivo final é nulificá-la. Monstruosidade, a vida me vilipendiou, brutalizou, massacrou, opulenta, linda, esplendorosamente. Terei o cuidado de acalentá-la sem que você floresça.

Suponho que você veio a existir por causa de alguma pergunta deixada sem resposta, e que respondê-la seria, assim, pôr fim ao seu horror: onde está o limiar do Universo? por que há infinitos maiores que outros? onde morre o vento? qual foi a primeira pergunta?

Quando é que eu vou amanhecer?

Amanhecia quando, um dia, eu deixei Valintra — espantado, célere, sedento. Minha jornada seguiu pelo Apagamento aonde conheci tantas almas, tantas existências nobres. Eu lembro que, quando foi decidido que eu passaria pelo Apagamento, chorei até ficar vermelho e de alma transparente. Foi essa transparência que me permitiu atravessá-lo. E minha travessia foi necessária para conhecer Cor-de-Lama e a existência sagrada da Criança-Espectral, com sua felicidade iridescente e opulenta. Durante alguns anos, cuidei deles e eles somente tiveram a mim.

Monstruosidade, saia o mais depressa possível de Valintra! Ao atravessar o Apagamento, use sua capa, como eu o fiz, e faça silêncio.

A vida começou outra vez quando me tornei pai. Vim para esta cidade conveniente, que tem uma floricultura, um cemitério e uma funerária como vértices de um triângulo. Quando sair daqui, baterei bem os pés para não levar a poeira dessa imundície suja.

Monstruosidade, não deixe Argo pegar você.

Era uma vez no Apagamento a perigosa existência do Rio Escuro: em suas águas rumorejantes, rumorejava-se haver escondida uma parte sua.

Tomei muito cuidado para não me molhar no rio: a escuridão é capaz de acordar o seu exército; as águas têm o poder de multiplicá-lo. Eu cuidei tanto, mas, neste sábado, me molhei sem querer. Acordada, você agora se multiplica. Com seu exército, secretamente tem me controlado. Como irei me livrar de seu toque necrosante? Não é o bastante não entrar em contato com a escuridão das águas.

Encontrei-a na poeira do ar, na vibração do fogo, nas chicotadas do vento. Em caixas-segredo, em túmulos vivificados, sua nêmese se multiplica. Ao encontrá-la: não se desesperar por sua frutífera multiplicação. Seu exército é vencido golpe-a-golpe, machado e clava. Adoraria enterrar um machado na sua cara, com amor. Decapitá-la, eviscerá-la, lobotomizá-la. Não a odeio.

É preciso purificar as águas: estou fumando como um desgraçado.

Às vezes, penso em construir pontes para atravessar o rio; às vezes, lembro que uma gota é capaz de invocá-la. Alguns de meus queridos escondem-na, bem sei.

Eu a encontrei em multidões, eu a vi em nuvens brancas, em olhos de azul-pacífico. É ilusão achar que somente no escuro do mundo você se esconde.

Quão ingênuo eu fui para achar que iria derrotá-la? Você foi inventada pelos assírios, aperfeiçoada pelos citas; milênios a têm fortalecido. Você não luta sozinha: seu exército de comensais está a pleno vapor cumprindo seu trabalho.

O que descobri é crucial: às vezes, acho que suas multiplicações são para que estas levem a culpa, enquanto você atravessa silenciosa, não-notada e radioativa. Os seus comensais apenas distraem, enquanto você faz o trabalho principal, capaz de nulificá-los a bel-prazer. Sinto que eles estão lentamente vencendo: o golpe de encontrá-la no pequeno cadáver de uma formiga há algumas semanas foi duro demais. É cansativo quando a batalha começa tão cedo e se arrasta por tantas mortes. A única arma que descobri capaz de nulificá-la é o vazio. Não há arma contra o vazio.

Seu maior mistério permanece — criança ferida conduzindo outra criança: quem a alimentou durante todos estes anos?

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Autor: Douglas Kaipper

ENQUANTO VOCÊ LUTAVA TÃO DISTANTE é meu blog pessoal, aonde compartilho literatura de ficção e reflexões. Estou no Instagram em https://www.instagram.com/dougl.kaipper/

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